A chuva sempre teve um significado especial pra mim.
Chovia quando te conheci.
Eu estava emocionalmente vulnerável, imaturamente infeliz e sendo a
desmiolada aventureira que sempre fui.
Você
era facil de amar e eu amei o seu olhar de quem desejava o mundo, seu sorriso
de anti-heroi brasileiro e seu jeito largado naquele dia chuvoso. Com o tempo
percebi que você me
dava uma paz que me deixava com vontade chorar de desespero, porque eu sempre
fui a filha do caos.
Criada numa anarquia brasileira nata, de familia católica e hipócrita, que enche a boca pra falar de quem é mais feliz e mais corajoso. Carregando o
peso de um sobre nome que nada tem haver com minha personalidade, e uma vontade
fugir maior que as pernas podem correr.
E eu que já
sabia amar alguém,
vi novamente nascer em mim uma vontade ficar ali... Como quem encontra um mistério a ser desvendado, escondendo as
proprias pistas, pra talvez, ter poder sobre a resposta, seja ela verdadeira ou
inventada.
Fui me apegando com o tempo, tentando te ajustar às minhas expectativas e te fazer imagem e
semelhança
de quem você
era na minha mente fértil
de quem aprendeu a dar mais valor em lapis de cor do que na calculadora.
Eu tinha recentes 18, seguidos de um histórico de mentiras e uma vida de tédio, convencendo a mim mesma de que meu único crime era chorar lagrimas ocre, num
mundo tao pobre, que mataram essa cor.
Você
era alguém
legal de ser e eu fui me tornando mais você e
me perdendo música
após
musica, a cada cigarro amenizado em goles de cerveja que você fazia parecer natural. Mas você era uma eterna adolescência, por trás de uma crise de duas décadas e um. E eu passei a me sentir uma
obra de arte inutilizada e sem papel social, dependente de um museu que era você.
E que se tornou o mausoléu da minha alma, morta e enterrada a cada
palavra amarga que você
usava pra diminuir sua magoa sujando meu nome como se eu também fosse te abandonar por ser um perfeito
brasileiro, que pode ate não
gostar de futebol, mas vive em função
do próximo
feriado.
Até que
você
quis ser o inverso do primeiro, indo embora no meu aniversário, me fazendo rejeitar chocolate e
amargando meu sagrado dia um. Mas voltou com o sol, me arrancando mais lagrimas
que já
nem eram ocres e doiam como sangue, enquanto você dormia ao meu lado, com o ronco mais
calado, que incomodava como o som de um novo dia, pra uma alma abandonada.
Então
eu decidi parar de abafar meus soluços
com o chuveiro, e ir pra onde a dor doesse com 5% de álcool grátis e um CD ao vivo de cbjr no carro ao me
levar pra casa e pra lugares e bares que você não
levou.
E sem espaço
pra sobriedade, ele fez parecer facil, mas cada vez que você surgia, a vida novamente tinha graça. E seu sorriso me fazia acreditar que a
alegria não
era uma farsa. Entao eu troquei a ceva de graça, troquei sem aviso prévio, como um escritório em um grande prédio, já vazia e sem poesias. Por outro que nunca
seria você,
me convencendo de que, estava pronta para te esquecer. Porém todo caminho que percorri correndo, me
trouxe exatamente pra minha trilha do medo, me mantendo entre os seus dedos,
rezando pra ir embora antes que seja muito cedo.
Ter voltado pra você foi mais difícil que te deixar ir. E só pelo desafio talvez é que eu esteja aqui hoje, te dizendo
adeus. Porque eu não
nasci pro amor, pois ele desconstrói e
destroi, tudo aquilo que eu sou.
Então
adeus meu amado, eu preciso de algo doce nesse mundo amargo, pois só a dor me visitou desde que você me quebrou, e por imaturidade ou maldade,
está
sempre ocupado de mais pra juntar minhas partes.
Porque você é meu Anjo Gabriel, você vai me apresentar o mundo... mas nunca me
levar pro céu.